Leonor Bianchi
Como afirmou o governo municipal em release publicado em diversos jornais semanais, o atendimento em Saúde deu um salto significativo em qualidade nos últimos anos. Afirmativa esta, que vai de encontro à opinião de quem precisou usar o pronto-socorro da cidade e o posto de saúde do Âncora nos últimos 15 dias.
Após procurar o posto de saúde do bairro onde reside há três anos com uma forte dor no peito, Dona Jacira Nunes da Silva, de 53 anos, contou que demorou para receber atendimento e que, mesmo relatando ao médico que a atendeu a dor que sentia, não foi encaminhada para o pronto-socorro para a Unidade de Dor Torácica, tampouco para o hospital municipal, para ser submetida a exames que comprovassem ou não a gravidade de seu quadro clínico. “Fiquei um tempão esperando para ser atendida e, quando o clínico me recebeu, só tirou minha pressão e mandou que eu voltasse para casa para descansar. Eu disse que não precisava descansar e sim ser medicada, mas não sabia o que tinha. Ele não quis saber. Não me mandou fazer nenhum exame e disse que meu caso era estresse e pressão alta, que ia passar se eu repousasse. Agora eu quero saber se é assim com todo mundo que chega no posto dizendo que está com dor no peito. Ser for, vai ter muita gente batendo as botas por falta de competência dos médicos que estão trabalhando aqui na cidade”, disse, indignada, a dona de casa.
Além dela, Noêmia Figueiredo, de 36 anos, atendente de telemarketing, também não tem muitos elogios a fazer ao serviço de saúde do município. Ela precisou dos serviços médicos do pronto-socorro na semana passada e esperou bastante pelo atendimento. “Cheguei as 12h00 no pronto-socorro e só fui atendida depois das 17h00, mesmo assim porque reivindiquei que dessem atenção ao meu caso, pois estava com muita dor”, disse Noêmia, que afirmou ter visto guardas municipais entrarem na emergência do pronto-socorro sem fazer ficha na entrada. “Não sei porquê há pessoas que não precisam esperar como todos os cidadãos e entram na frente. Nas cinco horas em que fiquei sentada aguardando minha vez de ser atendida, vi funcionários da guarda municipal, fardados, serem atendidos com prioridade. Estranhei o fato de nenhum deles ter saido de ambulância alguma, o que me fez pensar que não se tratavam de casos graves”, disse Figueiredo.
Depois de receber a explicação de um funcionário da recepção do pronto-socorro sobre o motivo da demora em seu atendimento para a emergência em ortopedia, ela soube que o pronto-socorro só tinha um ortopedista de plantão e que o mesmo estava ocupado, realizando uma cirurgia em uma pessoa que havia chegado ao local com uma fratura grave. “Quando ouvi essa desculpa, perguntei na mesma hora: E se agora chegar outro paciente com uma fratura, ele terá que esperar a cirurgia terminar para receber atendimento?”, comentou a munícipe, que ainda disse: “Se sabem que a emergência ortopédica é uma das mais requisitadas, por que não contratam mais médicos dessa especialidade?”.
Posto improvisado vai fazer um ano
Às vésperas de completar um ano de funcionamento em uma unidade improvisada, o posto de saúde do bairro Âncora tem alta demanda por atendimentos em pediatria, mas segundo moradores que procuram atendimento no local, não há vagas para a especialidade, nem previsão de atendimento dos que aguardam em uma fila. Pelo volume de atendimentos que presta diariamente e tendo em vista o aumento da população do bairro, moradores reclamam da falta de atenção do governo com relação à saúde no local, e esperam receber a unidade de saúde nova, que está praticamente pronta, ao lado do posto improvisado, com equipamentos, médicos e remédio como foi prometido um ano atrás.
Para a segunda secretária do Conselho Gestor de Saúde do posto de saúde do Âncora, a dona de casa, Mirian Marques Almeida, de 43 anos, o posto do bairro precisa com urgência de mais um pediatra. “Sabemos que a população de Rio das Ostras não pára de crescer e que o Âncora é um bairro que têm hoje o maior número de habitantes da cidade. Por isso, gostaríamos de receber a atenção merecida em saúde enquanto o novo posto de saúde que ficou de ser inaugurado este ano, não é aberto. As pessoas têm tido dificuldades de serem atendidas pela pediatra do posto, que faz o que pode e o que não pode para dar conta do recado e ainda assim, muitos ficam sem atendimento. Pedimos que o governo olhe com carinho nossa necessidade e coloque mais um médico pediatra aqui no Âncora”, disse a representante do Conselho Gestor de Saúde do posto do Âncora.
Boca da Barra sempre lotado
Outro posto de saúde que está sempre superlotado e sem previsão de receber obras de ampliação ou contratação de mais médicos é o do bairro Boca da Barra. Recentemente em uma pesquisa informal sobre o atendimento em Saúde oferecido pelos postos de saúde de Rio das Ostras, constatamos a fragilidade do sistema, que ainda depende de contratações de mais funcionários e melhoras de infra-estrutura nos locais de atendimento.
Considerado um dos postos de saúde referência em atendimento odontológico no município, o posto de saúde da Boca da Barra está permanentemente lotado de pacientes de outros bairros, que se dirigem ao local em busca do atendimento mais rápido. O que acontece, segundo médicos que trabalham no posto é o excesso de demanda, que acaba interferindo não só no volume de atendimentos do posto, que não tem capacidade para prestar os atendimentos, como na própria qualidade do atendimento, que fica comprometido por causa da falta de tempo do médico para assistir o paciente.
Embora o governo tenha dito que a população só tem o que agradecer aos serviços prestados em Saúde no município, vale destacar que há quem diga que a estrutura existe, mas não funciona. Vale lembrar ainda, que este ano, há poucos meses, todos leram em diversos jornais da cidade o caso da mãe – representante do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Rio das Ostras – que levou o filho de 11 anos com uma queimadura grave ao pronto-socorro e o mesmo voltou para casa depois de ser medicado e ter seu machucado enfaixado como um leve arranhão. Não fosse a mãe desconfiar que tratava-se de uma urgência médica, o caso de seu filho poderia ter tido um desfecho bem pior. Depois de recorrer diversas vezes ao diretor do hospital municipal para receber um encaminhamento de seu filho para uma unidade especializada em queimados no Rio de Janeiro e até em São Paulo, e sem encontrá-lo ou receber retorno, ela agiu por conta própria para curar o menino. Nesse caso, não podemos falar em omissão, mas em falta de capacidade para clinicar. Que médico estuda cinco anos, presta um concurso público e diz que uma queimadura grave não aspira maiores cuidados do que a aplicação de uma pomada? Que chefes de equipe médica são esses que, quando procurados para dar encaminhamentos a pacientes com quadros emergenciais como esse, não são encontrados em seus locais de trabalho?
Vale refletir sobre o atendimento em Saúde oferecido em Rio das Ostras. Há quem o sistema está beneficiando, moradores de Costazul, do Âncora? E, para além dessa reflexão, cabe ainda, pensar em como será esse serviço público de fundamental importância para os munícipes daqui a alguns anos, já que hoje a cidade recebe uma enorme quantidade de pacientes de outras cidades, que recorrem ao sistema de Saúde de Rio das Ostras pelo estado de sucateamento absoluto pelo qual a saúde em suas cidades passa.
De acordo com o release divulgado pela prefeitura, atender a crescente demanda de pacientes que procuram a rede pública de Saúde da cidade é um problema. No material promocional da prefeitura, foi revelado o número de atendimentos prestados pela Policlínica municipal a pessoas de outras cidades; 48% somente em agosto.
Ainda no informe publicitário da prefeitura sobre Saúde municipal divulgado nos jornais locais, um dos postos que mais recebe pacientes, o do bairro Nova Esperança, chega a atender em média 1.500 pessoas por mês, cerca de 70 por dia.
Com números claros, saltando aos olhos, não há mais duvidas de que, se foram investidos os R$ 31 milhões mencionados no release, em Saúde municipal nos últimos anos, ainda há uma série de deficiências a serem resolvidas no sistema, é sinal de que falta gestão e planejamento no setor. Afinal, com R$ 31 milhões sendo aplicados em Saúde, não era para ter tanta gente esperando horas para receber atendimento, não era para um dos bairros mais carentes da cidade ainda não ter um posto de saúde definitivo, e não era para pacientes serem dispensados por médicos descompromissados com a profissão e com o município onde atuam. Ou será que estamos falando demais?
Como afirmou o governo municipal em release publicado em diversos jornais semanais, o atendimento em Saúde deu um salto significativo em qualidade nos últimos anos. Afirmativa esta, que vai de encontro à opinião de quem precisou usar o pronto-socorro da cidade e o posto de saúde do Âncora nos últimos 15 dias.
Após procurar o posto de saúde do bairro onde reside há três anos com uma forte dor no peito, Dona Jacira Nunes da Silva, de 53 anos, contou que demorou para receber atendimento e que, mesmo relatando ao médico que a atendeu a dor que sentia, não foi encaminhada para o pronto-socorro para a Unidade de Dor Torácica, tampouco para o hospital municipal, para ser submetida a exames que comprovassem ou não a gravidade de seu quadro clínico. “Fiquei um tempão esperando para ser atendida e, quando o clínico me recebeu, só tirou minha pressão e mandou que eu voltasse para casa para descansar. Eu disse que não precisava descansar e sim ser medicada, mas não sabia o que tinha. Ele não quis saber. Não me mandou fazer nenhum exame e disse que meu caso era estresse e pressão alta, que ia passar se eu repousasse. Agora eu quero saber se é assim com todo mundo que chega no posto dizendo que está com dor no peito. Ser for, vai ter muita gente batendo as botas por falta de competência dos médicos que estão trabalhando aqui na cidade”, disse, indignada, a dona de casa.
Além dela, Noêmia Figueiredo, de 36 anos, atendente de telemarketing, também não tem muitos elogios a fazer ao serviço de saúde do município. Ela precisou dos serviços médicos do pronto-socorro na semana passada e esperou bastante pelo atendimento. “Cheguei as 12h00 no pronto-socorro e só fui atendida depois das 17h00, mesmo assim porque reivindiquei que dessem atenção ao meu caso, pois estava com muita dor”, disse Noêmia, que afirmou ter visto guardas municipais entrarem na emergência do pronto-socorro sem fazer ficha na entrada. “Não sei porquê há pessoas que não precisam esperar como todos os cidadãos e entram na frente. Nas cinco horas em que fiquei sentada aguardando minha vez de ser atendida, vi funcionários da guarda municipal, fardados, serem atendidos com prioridade. Estranhei o fato de nenhum deles ter saido de ambulância alguma, o que me fez pensar que não se tratavam de casos graves”, disse Figueiredo.
Depois de receber a explicação de um funcionário da recepção do pronto-socorro sobre o motivo da demora em seu atendimento para a emergência em ortopedia, ela soube que o pronto-socorro só tinha um ortopedista de plantão e que o mesmo estava ocupado, realizando uma cirurgia em uma pessoa que havia chegado ao local com uma fratura grave. “Quando ouvi essa desculpa, perguntei na mesma hora: E se agora chegar outro paciente com uma fratura, ele terá que esperar a cirurgia terminar para receber atendimento?”, comentou a munícipe, que ainda disse: “Se sabem que a emergência ortopédica é uma das mais requisitadas, por que não contratam mais médicos dessa especialidade?”.
Posto improvisado vai fazer um ano
Às vésperas de completar um ano de funcionamento em uma unidade improvisada, o posto de saúde do bairro Âncora tem alta demanda por atendimentos em pediatria, mas segundo moradores que procuram atendimento no local, não há vagas para a especialidade, nem previsão de atendimento dos que aguardam em uma fila. Pelo volume de atendimentos que presta diariamente e tendo em vista o aumento da população do bairro, moradores reclamam da falta de atenção do governo com relação à saúde no local, e esperam receber a unidade de saúde nova, que está praticamente pronta, ao lado do posto improvisado, com equipamentos, médicos e remédio como foi prometido um ano atrás.
Para a segunda secretária do Conselho Gestor de Saúde do posto de saúde do Âncora, a dona de casa, Mirian Marques Almeida, de 43 anos, o posto do bairro precisa com urgência de mais um pediatra. “Sabemos que a população de Rio das Ostras não pára de crescer e que o Âncora é um bairro que têm hoje o maior número de habitantes da cidade. Por isso, gostaríamos de receber a atenção merecida em saúde enquanto o novo posto de saúde que ficou de ser inaugurado este ano, não é aberto. As pessoas têm tido dificuldades de serem atendidas pela pediatra do posto, que faz o que pode e o que não pode para dar conta do recado e ainda assim, muitos ficam sem atendimento. Pedimos que o governo olhe com carinho nossa necessidade e coloque mais um médico pediatra aqui no Âncora”, disse a representante do Conselho Gestor de Saúde do posto do Âncora.
Boca da Barra sempre lotado
Outro posto de saúde que está sempre superlotado e sem previsão de receber obras de ampliação ou contratação de mais médicos é o do bairro Boca da Barra. Recentemente em uma pesquisa informal sobre o atendimento em Saúde oferecido pelos postos de saúde de Rio das Ostras, constatamos a fragilidade do sistema, que ainda depende de contratações de mais funcionários e melhoras de infra-estrutura nos locais de atendimento.
Considerado um dos postos de saúde referência em atendimento odontológico no município, o posto de saúde da Boca da Barra está permanentemente lotado de pacientes de outros bairros, que se dirigem ao local em busca do atendimento mais rápido. O que acontece, segundo médicos que trabalham no posto é o excesso de demanda, que acaba interferindo não só no volume de atendimentos do posto, que não tem capacidade para prestar os atendimentos, como na própria qualidade do atendimento, que fica comprometido por causa da falta de tempo do médico para assistir o paciente.
Embora o governo tenha dito que a população só tem o que agradecer aos serviços prestados em Saúde no município, vale destacar que há quem diga que a estrutura existe, mas não funciona. Vale lembrar ainda, que este ano, há poucos meses, todos leram em diversos jornais da cidade o caso da mãe – representante do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Rio das Ostras – que levou o filho de 11 anos com uma queimadura grave ao pronto-socorro e o mesmo voltou para casa depois de ser medicado e ter seu machucado enfaixado como um leve arranhão. Não fosse a mãe desconfiar que tratava-se de uma urgência médica, o caso de seu filho poderia ter tido um desfecho bem pior. Depois de recorrer diversas vezes ao diretor do hospital municipal para receber um encaminhamento de seu filho para uma unidade especializada em queimados no Rio de Janeiro e até em São Paulo, e sem encontrá-lo ou receber retorno, ela agiu por conta própria para curar o menino. Nesse caso, não podemos falar em omissão, mas em falta de capacidade para clinicar. Que médico estuda cinco anos, presta um concurso público e diz que uma queimadura grave não aspira maiores cuidados do que a aplicação de uma pomada? Que chefes de equipe médica são esses que, quando procurados para dar encaminhamentos a pacientes com quadros emergenciais como esse, não são encontrados em seus locais de trabalho?
Vale refletir sobre o atendimento em Saúde oferecido em Rio das Ostras. Há quem o sistema está beneficiando, moradores de Costazul, do Âncora? E, para além dessa reflexão, cabe ainda, pensar em como será esse serviço público de fundamental importância para os munícipes daqui a alguns anos, já que hoje a cidade recebe uma enorme quantidade de pacientes de outras cidades, que recorrem ao sistema de Saúde de Rio das Ostras pelo estado de sucateamento absoluto pelo qual a saúde em suas cidades passa.
De acordo com o release divulgado pela prefeitura, atender a crescente demanda de pacientes que procuram a rede pública de Saúde da cidade é um problema. No material promocional da prefeitura, foi revelado o número de atendimentos prestados pela Policlínica municipal a pessoas de outras cidades; 48% somente em agosto.
Ainda no informe publicitário da prefeitura sobre Saúde municipal divulgado nos jornais locais, um dos postos que mais recebe pacientes, o do bairro Nova Esperança, chega a atender em média 1.500 pessoas por mês, cerca de 70 por dia.
Com números claros, saltando aos olhos, não há mais duvidas de que, se foram investidos os R$ 31 milhões mencionados no release, em Saúde municipal nos últimos anos, ainda há uma série de deficiências a serem resolvidas no sistema, é sinal de que falta gestão e planejamento no setor. Afinal, com R$ 31 milhões sendo aplicados em Saúde, não era para ter tanta gente esperando horas para receber atendimento, não era para um dos bairros mais carentes da cidade ainda não ter um posto de saúde definitivo, e não era para pacientes serem dispensados por médicos descompromissados com a profissão e com o município onde atuam. Ou será que estamos falando demais?
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