22 dezembro 2007

Mar do Norte: Registro do paradoxo de uma cidade que não pára de crescer

Mar do Norte: Registro do paradoxo de uma cidade que não pára de crescer

Sem infra-estrutura básica, uma das regiões mais bonitas de Rio das Ostras e também uma das que mais cresce na cidade revela o abandono da administração pública

Leonor Bianchi


Se as campanhas publicitárias propagadas pelo governo municipal nos últimos meses mencionam benfeitorias na região sul da cidade com a implantação do sistema de esgotamento sanitário e distribuição de água através do desconhecido pela população ‘projeto reviver’, o mesmo não ocorre na região norte, onde o abandono por parte da administração pública é absoluto. Em uma das localidades mais bonitas de Rio das Ostras – Mar do Norte – moradores vivem sem infra-estrutura básica e dizem que estão esquecidos pelo prefeito Carlos Augusto. Muitos ainda residem em humildes casas às margens da RJ 106 correndo risco de vida pela localização de suas moradias em local de alto tráfego de carretas e caminhões, dividindo, contraditoriamente, espaço com empresas nacionais e estrangeiras, que vem se instalando na região nos últimos anos, fazendo Mar do Norte se transformar na nova Rio das Ostras.

Cercado de antigas fazendas loteadas e áreas que há muito foram invadidas por posseiros, Mar do Norte guarda uma das paisagens mais lindas de Rio das Ostras. O forte apelo de um dos atrativos da localidade - a praia - poderia ser um argumento para o governo municipal investir na região e torná-la uma referência, inclusive, em termos turísticos. Porém, ainda sem rede de coleta de esgoto, distribuição de água, segurança pública, creche e um eficiente atendimento em saúde, Mar do Norte está à parte da cidade, sofrendo as conseqüências do escárnio por parte do governo municipal.

A doméstica Gerusa Marques Gomes, 31, viu Mar do Norte crescer. A mãe, Dona Ilza, de 65 anos, chegou no local há mais de 30 anos. Morando num terreno com quatro casas muito simples na rua projetada, à beira da estrada (RJ 106), elas dizem que falta atenção do governo com a população que reside no local. Na lista de demandas da comunidade mencionada por Gerusa, a saúde e a segurança têm mais peso. Segundo ela, no posto de saúde de Mar do Norte não há médicos especializados no atendimento às crianças e à mulher, e a distribuição de remédios não existe mais. “Preciso fazer exames ginecológicos e não consigo fazer aqui. No posto de saúde daqui só tem médico generalista. Fui encaminhada para o posto de saúde da extensão do Bosque, mas lá, me disseram que não há previsão de quando serei atendida, pois a fila de espera está muito grande”, disse ela.

Quem também tem ressalvas a fazer com relação ao serviço público de saúde é dona Maria Teresa Maia de 62 anos e sua filha Rosangela, que tenta há mais de seis meses tratamento através do município para um câncer de mama. Com problemas pulmonares, a dona de casa Maria Teresa precisa usar o remédio Neroprazol com freqüência, mas diz que não tem tido como fazer uso do medicamento, pois não podendo pagar os quase R$ 100 pelo mesmo, depende da distribuição do remédio, que está em falta nas farmácias dos postos de saúde da cidade. “Além desse remédio, preciso tomar um outro para o coração, que já está em falta há meses em todos os postos de saúde da cidade. Sei disso porque quando falta um remédio aqui no posto, temos que ir à cidade pegar no centro da Extensão do Bosque. Mas agora, nem lá tem mais o remédio”, comentou Teresa.

Sem atenção devida em saúde, a comunidade ainda tem que conviver com o esgoto a céu aberto. Na casa de Gerusa, a família utiliza uma fossa que é limpa uma vez por ano pelo caminhão limpa-fossa. A água usada pelos moradores da região, segundo afirmou Gerusa, é do poço artesiano e, ainda de acordo com a moradora, não há previsão da implantação do sistema de esgoto e distribuição de água no local. “Temos que contratar o serviço do caminhão fossa, que é caríssimo para nós, e só podemos limpar a caixa uma vez por ano”, contou. Já na rua Albano Branco, uma das principais de Mar do Norte, longe da casa de Gerusa e onde mora dona Teresa, o sistema de tratamento de esgoto também não existe. O sumidouro construído em frente ao terreno da casa não compromete diretamente a qualidade da água que a família utiliza, pois o poço artesiano de onde vem a água da casa fica na parte de trás do terreno. Ainda assim, o método utilizado para tratar o esgoto não apenas na casa de dona Teresa, mas como em diversas outras residências da localidade, denunciam a falta de infra-estrutura da região, que hoje agrega no mesmo cenário casas muito humildes e mansões faraônicas, todas sem tratamento de esgoto adequado.

Assistencialismo anunciado
Gerusa conta que quer e precisa trabalhar, mas o fato de não haver uma creche no local torna inviável seu projeto de vida. Com três filhos pequenos, ela diz que outras mães da localidade também não têm opção quando o assunto é sair de casa para trabalhar. “Não temos com quem deixar nossas crianças, pois aqui não há uma creche. Estamos pedindo a construção de uma creche em Mar do Norte, mas não temos tido retorno do prefeito”, comentou a moradora, que depende de benefícios como o Bolsa Família para sustentar a casa e, recentemente, cadastrou-se para receber recursos do mais novo projeto social do governo municipal – o Cartão do Bem-, mas não teve êxito porque a assistente social que trabalha no programa exigiu enquanto contrapartida fundamental para que ela recebesse o recurso, que seu título de eleitor fosse de Rio das Ostras. “Ela foi bem clara dizendo que eu só receberia ajuda do programa se tivesse o título aqui. Como votei em Macaé durante alguns anos e meu título ainda é de lá, não posso participar do Cartão do Bem, o que é totalmente errado”, opinou.

Além da creche, Gerusa diz que falta segurança pública em Mar do Norte. A região afastada da cidade não tem policiamento algum, segundo ela. “É raro vermos um carro da guarda municipal fazendo ronda aqui perto. Mesmo quando ligamos para a guarda avisando que tem algum carro suspeito passando por aqui ou coisas desse tipo, não somos atendidos”, contou.

Patrimônio arquitetônico esquecido
Na opinião da moradora, a recente obra de urbanização na praça de Mar do Norte onde está localizada a antiga igrejinha de São Judas Tadeu foi uma verdadeira balela. Não tendo influenciado em nada a sua vida e a de seus familiares, a obra considerada por ela desnecessária poderia ter sido substituída por alguma ação mais significativa para a população que vive no local. “Reformaram, tapearam, botaram uns banquinhos, mas tinha coisa mais útil para ser feita e não foi”, enfatizou Gerusa.

Teresa Maia contou que em 1992 a igreja passou por uma reforma, mas depois disso nunca mais recebeu um balde de tinta. Considerada uma das construções mais antigas de Rio das Ostras e que deveria receber a atenção que todo patrimônio arquitetônico de uma cidade merece por guardar aspectos da história e da memória de seu povo, a igreja está com rachaduras nas paredes e completamente abandonada. A reforma feita recentemente pela prefeitura na praça onde está a igreja não adentrou as portas da casa paroquial. “Eles tiraram o muro que cercava a igreja, e calçaram a pracinha. A reforma da igreja foi prometida, mas ninguém sabe quando será feita de fato”, disse dona Teresa, que mora bem em frente à igreja de São Judas Tadeu.


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