21 fevereiro 2008

Orlando Senna faz palestra em aula inaugural em Fortaleza

21/02/08
Diário do Nordeste
A vez do audiovisual
O diretor-geral da Tevê Brasil, Orlando Senna, ministra hoje, às 19h, no Teatro Celina Queiroz, aula inaugural do curso de Audiovisual e Novas Mídias da Universidade de Fortaleza.O diretor-geral da Tevê Brasil (tevê pública), o cineasta Orlando Senna, está entusiasmado com o crescimento do audiovisual no Brasil. Cita como exemplo, o curso de Audiovisual e Novas Mídias, da Unifor, do qual será patrono e fará hoje, às 19 horas, a aula inaugural.
“A atenção que a universidade brasileira está dando ao campo do audiovisual é de grande importância, já que existe a necessidade de preparar quadros em nosso País para este novo campo. Estamos numa nova quadra econômica, iniciando uma nova era na nossa civilização. A comunicação audiovisual será, sem dúvidas, a atividade mais importante do Século XXI”.
O ex-escretário do audiovisual do Ministério da Cultura rebate críticas com relação a esta nova “era da informação“, num país periférico como o Brasil. Muitos colocam que, no contexto de uma população pobre, com ínfimo acesso a Internet e outros meios tecnológicos, a chamada “civilização do audiovisual” terá, também, contornos elitistas. Para Senna, ocorre o contrário. Argumenta que 86% dos brasileiros já têm acesso às novas mídias - televisão, cinema Internet, games - e este número tende a crescer, bem como a tecnologia do setor.— Vivemos uma nova era do conhecimento. Não serão estes argumentos, segundo os quais o País deveria destinar menos recursos para o audiovisual diante de uma situação ainda de pobreza de grande parte da população. Muitos analistas consideram que essa nova ordem comunicacional do mundo vai ajudar os governos a buscar soluções para estes problemas. Será a força de criação e comunicação que garantirá um lugar ao sol para Brasil nesta nova conjuntura econômica, nova etapa civilizatória.
Senna defende que atualmente o universo do audiovisual oferece possibilidades bem maiores de absorção de profissionais pelo mercado. Um mercado, segundo ele, que está em constante crescimento. E também em contínua mudança. O crescimento é significativo tanto no campo do cinema, quanto da televisão. Sem falar em outras mídias. ”É só olhar em todo o País o número de emissoras de televisão em busca de novos conteúdos. A demanda é grande e tende a crescer nos próximos anos”, diz.
Conteúdos
Orlando Senna assinala que em nenhuma quadra de nossa história nunca se fez “tanto cinema, tanto televisão, tantos programas de games, enfim, tanto conteúdo audiovisual - a demanda cresce semana a semana”. Aquilo que era uma atividade no campo profissional bastante restrito, está se modificando de maneira radical. Por isso vale a pena, do ponto de vista financeiro, o investimento em cursos superiores relacionados com essa atividade”, assinala. “Imagine um estudante dos anos 70 de cinema. Ora, ele teria muito mais dificuldades de realizar seus projetos, enfrentava uma concorrência enorme. Eram tecnologias muito reservadas. Não se fazia tanto cinema e a televisão era praticamente privada. Isso mudou completamente com o crescimento do cinema, da TV. Atualmente a situação é outra. Hoje, a industria do audiovisual oferece uma ampla possibilidade de novos empregos”.
Outro argumento contrário é com relação a questão tecnológica que, segundo alguns humanistas, afasta-se do homem, tonando-o objeto de um sistema comunicacional centrado na sociedade de consumo ou na comunicação do grotesto. Para Orlando, essa mudança de paradigmas vai depender muito dos cursos que ora estão sendo instalados . “Será a responsabilidade seminal das universidades brasileiras”.— O estudantes de audiovisual, na verdade, não estudará somente tecnologias. Mas sim, arte, estética, filosofia. A universidade terá que formar novos profissionais com uma grande preocupação humanística, diante deste enorme campo que se abre. Por outro lado, a responsabilidade deste novo profissional é enorme. Ele lidará com a formação do pensamento, associação de idéias, propostas de ação para milhões de pessoas. A responsabilidade social, cidadã e ética de quem produz audiovisual é incalculável. Por isso, acho importante que este processo se coloque no contexto de uma universidade.
O curso aposta em meios e renovação da linguagem audiovisual. A homenagem a Orlando Senna e palestra do cineasta marcam o início das atividades do novo curso de graduação da Unifor - Audiovisual e Novas Mídias. A primeira turma conta com 50 alunos. Coordenado pela professora Daniela Duarte Dumaresq, o curso terá a duração de oito semestres. Sem abrir mão da discussão teórica, o novo curso se volta para os desafios da produção no atual cenário do audiovisual. ´Os graduados sairão do curso capacitados para atuar na área, criando seus próprios projetos ou se inserindo no mercado que já existe´, explica Dumaresq. Segundo a coordenadora, o curso se abre para as novas possibilidades que têm surgido na linguagem e no mercado do audiovisual com o aparecimento de novos recurso em mídias tradicionais (como TV, que deve entrar em breve em sua era digital) e meios em constante expansão, como a Internet.
Televisão pública
Orlando Senna é atualmente diretor-geral da Tevê Brasil, projeto polêmico mas que agora está saindo do papel. Ele comemora que a Medida Provisória criando a TV Brasil teve 336 votos a favor contra 103 na Câmara dos Deputados. E espera que o mesmo ocorra quando a MP for votada pelos senadores. “Esperamos que essa mesma compreensão cidadã e republicana mostrada pelos deputados contamine os senadores”. Orlando informa que no momento a tevê pública está em fase de instalação. Primeiro, ela agruparia as emissoras educativas e, em seguida, a rede cresceria com as tevês universitárias. Segundo ele, a conformação da rede já está em processo e foi formado um comitê envolvendo 20 emissoras do País. Mas o número deverá crescer, ainda, este ano. Rebate que uma rede como a proposta torne-se um novo aparelho ideológico de Estado. “Se a rede for ligada ao Estado não será pública”. A Medida Provisória, por exemplo, impede qualquer influência do governo na rede que ora está se formando. Segundo ele, pela primeira vez, de uma maneira contemporânea, existe uma normatização da atividade da televisão no Brasil (a última é de 1967, da ditadura militar). Embora a tevê pública utilize recursos do Estado será totalmente independente dele. Será autônoma. Existe um conselho curador, quer dizer, a sociedade é que mandará na tevê pública. “Caso haja qualquer interfência do governo, os diretores se demitirão, bem como o conselho curador do sistema”. Existem, atualmente, três modelos de televisão no Brasil: o estatal, o privado e o público. O estatal continuará atrelado ao governo, divulgando seus atos. Já a tevê pública cumprirá outros preceitos. Será autônoma, independente do ponto de vista editorial e terá conselhos representativos da sociedade mandando em seu destino. A rede será representada e fiscalizada pela sociedade. Orlando diz que não haverá uma cabeça de rede, mas sim cada região, cada Estado terá liberdade para criar sua grade de programação. “A rede que estamos desenhando não é vertical, mas sim horizontal. Todos têm a mesma importância, o mesmo peso dentro do projeto”, afirma.

José Anderson Sandes
Editor

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